Relato da viagem para Aldeia Velha

Já faz quase um mês desde o último post aqui no blog, que era um checklist preparativo para a viagem que fiz com a Thais para Aldeia Velha, um pequeno vilarejo na divisa de Silva Jardim e Casimiro de Abreu.

Desde que voltamos estou devendo um relato da pedalada, mas andei muito enrolado com final de período e outras situações, e fiquei postergando isso.
Inspirado e empolgado com os preparativos da viagem que parto daqui a 1 mês, resolvi escrever então o relato.

Como essa é a minha visão dos fatos e a pedalada foi a dois, convido a Thais pra fazer um relato dela, até por ter sido a sua primeira viagem e tal! =D

Fui para Niterói na véspera da viagem. Tínhamos várias coisas de última hora para resolver, como de costume, e iria rolar uma Bicicletada por lá. A Bicicletada acabou não rolando por falta de quorum (só apareceram 6 pessoas, metade delas desistiu, e eu e Thais tinhamos que resolver tudo pra pedalada).
Acertamos os últimos detalhes, compras de farmácia, arrumar os alforjes nas bikes e etc, com a doce companhia de Danilo e Brunão, e só fomos dormir lá pela 1:30 da manhã se não me falha a memória. O plano era acordar umas 3:30, mas esticamos um pouquinho na cama, e só saímos 5:45.

Optamos por tentar um caminho que era novo pra mim (e pra ela também): ir por dentro de São Gonçalo (pelo Fonseca), até chegar na BR. Dessa forma evitamos o trânsito confuso e perigoso da Av. do Contorno, e a Niterói-Manilha. E ainda encontramos de novo o Brunão, amanhecendo o dia, perto da casa dele, tomando uma cerveja.

Entramos na BR sem maiores problemas (não que o trânsito nesse caminho seja tranquilão, em alguns trechos é terra de malboro, mas foi a melhor opção para sair de Niterói para a BR que fiz até agora).
Então começamos a pedalada pra valer, já com o sol começando a subir. Seguimos sem parar até o já tradicional ponto de Itaboraí onde tem um caldo de cana. Mas nas duas últimas vezes que passei por lá era cedo demais e não estava aberto. Paramos no barsinho onde 4 meses antes o Marcus quase arrancou um dedo fora, mas errou por pouco e só saiu muito muito sangue. No bar dessa vez tinha uma galera muito vida-loka com uns papos barra pesada bem engraçados.

Seguimos adiante, num ritmo de pedalada muito bom. Apesar de ser a primeira viagem da Thais, ela aguentou muito bem e manteve um ritmo muito bom, principalmente no trecho inicial. Às vezes eu tinha que dar uma esticada pra alcança-la.
Como tínhamos dormido muito pouco, o sono logo me atacou, e em algum lugar próximo de Tanguá eu já tava sentindo uma forte fadiga causada pelo sono. Precisei parar e tomar uma coca-cola, com a esperança que me desse uma acordada. Mas não resolveu nada.
Seguimos em frente com a meta de fazer uma parada um pouco mais calma no bar da tia onde parei nas 2 pedaladas anteriores pela BR-101.
A BR-101 é uma estrada bastante chata e entediante. Nada acontece, nada excepcionalmente bonito no caminho, nenhum desvio ou mudança. Absolutamente uma linha quase reta.

Paramos nesse barsinho da tia eram umas 10:30. Ele fica exatamente na metade do caminho até Aldeia Velha, e uns 15km antes da entrada de Rio Bonito.
Aqui a Thaís começou a sentir o cansaço da estrada, causado pela pedalada e pelo sol, que começava a castigar.
Apesar disso, decidimos seguir adiante até pelo menos 12h, e só então fazermos uma parada mais longa. Mesmo com o cansaço, ela tava bastante empolgada e sempre dando força pra gente continuar no gás. Tomamos uma água, comemos um doce, passamos uma nova camada de protetor solar, tudo ao som de tecnobrega, e seguimos em frente.

A partir daqui a pedalada começou a ser muito fatigante. O sol estava no ápice, meu sono era forte, e a Thaís começou a cansar de verdade. Passamos pela entrada da Via Lagos logo depois de Rio Bonito (pra quem vai de bike pela BR, é necessario contornar pela Via Lagos, e atravessar pela passarela).
Seguimos mas alguns km até não aguentarmos mais e pararmos, cerca de 12:30, em um Queijão que estava a uns 40km da entrada Aldeia Velha.
Quando sentamos a Thais afirmou categoricamente: “Daqui não vou mais levantar! Não aguento mais!”

De fato o cansaço tava bem forte. Passamos umas 2h parados lá. Fizemos um lanche mais reforçado, tiramos um cochilo deitados na varanda da loja, estávamos imundos, e precisamos de muito esforço pra retomar a pedalada, cerca de 14:30h. Fiz um trabalho psicológico na Thaís, pra ela acreditar que dava pra chegar!

 Pedalei para Aldeia Velha duas vezes, e não entendo bem o porque, mas a estrada para lá parece muito mais cansativa que as outras que já fiz. Nesse ponto, por exemplo, tinhamos pedalado 80km, e já estávamos destruídos. Na outra vez que fui, parei nesse local com a mesma sensação. Mesmo a estrada sendo relativamente plana, é muito desgastante. Quando subi a serra das araras até Piraí, completando lá 100km, não me senti tão cansado. Vai entender.

Os quilometros seguintes foram pedalados num ritmo relativamente bom, mas meio no automático, com um sentimento de não aguento mais. Num certo momento meu sono foi tanto que dormi por uma fração de segundos e quase tomei um tombo.

Depois de 118km pedalados, finalmente chegamos à entrada de Aldeia Velha. Exatamente como da outra vez, aqui você se sente totalmente revigorado, saindo da estradona de asfalto e caminhões, e pegando uma estradinha de terra batida, com gado, passarinhos, cachorros.

De fato, como conversei certa vez com o Rodrigo Primo, a estrada pela qual você pedala é tão ou mais importante do que o lugar para onde se vai, e é essencial se levar isso em conta quando se planeja uma viagem. Tanto é que nessa viagem que farei agora em dezembro estou procurando sempre alternativas às grandes rodovias, em todos os trechos em que isso seja possível.

 

Chegamos em Aldeia Velha umas 17:30, 12h depois da saída. Ficamos hospedados na casa da Dani, companheira do Pedro, da bicicletada aqui do Rio, e com a companhia da Ainá, filha deles. Na chegada ainda deu tempo de tomarmos um bom banho de rio aproveitando o fim do sol.

A estadia por lá foi maravilhosa, e decidimos voltar de ônibus para podermos passar um dia a mais em Aldeia.
Cachoeira e rio maravilhosos, visita ao Centro de Cultura Caipira, espaço gerido pelo pessoal da Escola da Mata Atlântica, cobra, cachorro, passeio noturno na estrada totalmente escura.
Foi uma viagem linda, e quero voltar lá assim que seja possível!

Agora sigo com os preparativos para a primeira viagem longa que farei: saio daqui dia 18 de dezembro, para Santa Catarina, tendo como destino final Garopaba, cidade de praia 100km ao sul de Florianópolis, onde minha família tem casa e com frequencia passo as férias. Estou planejando passar uns 25 dias na estrada, com paradas de 3 dias em SP, Cwb e Floripa.
Ao todo devo pedalar uns 1.300km, a maior parte sozinho, com meu violão no bagageiro.
E se tudo der certo a Thaís vai me acompanhar no trecho do Lagamar, as ilhas que dividem os estados de SP e PR.

Tem mais fotos da viagem no meu facebook (que nesse momento está desativado), e logo abaixo seguem mais algumas.

Thaís, escreva sua versão da viagem, pra eu postar aqui!

Preparando uma viagem de bike – checklist

Faz um tempo que tava pensando em fazer um post sobre os preparativos pré-viagem. E não haveria melhor momento do que estar fazendo os últimos preparativos para uma viagem!

Desde a Bicletada Jardinária em Niterói, onde conheci a Thaís e o Brunão, falamos de fazermos uma viagem de bike qualquer dia desses. Era pra ter rolado duas semanas atrás, mas o mau tempo e uma complicação de saúde que eu tive acabaram cancelando a viagem.

Eu e Thaís decidimos então fazer a viagem nesse final de semana. O Bruno não vai poder vir junto dessa vez. O que significa que teremos que fazer outra viagem com ele em breve! (e se tudo der certo farei também em breve uma com o Leo e o Danilo, com quem falo sobre fazer um role desse faz tempo.)

Bom, primeira coisa, nosso destino: Aldeia Velha.
Fui pra lá de bike, sozinho, no começo do ano. Faremos um trajeto um pouquinho diferente na saída de Niterói dessa vez, indo por dentro de São Gonçalo, entrando pra BR-101 só lá pela altura do bairro Paraíso. Já fiz esse caminho no sentido inverso e foi bom: trânsito muito mais ameno do que a saída de Niterói pela Av. do Contorno. De resto é só seguir pela BR-101 até chegar.

Vamos na sexta, voltamos no domingo. Viagem curta, levar muito pouca coisa. E temos onde ficar, logo não precisamos de barraca, o que é um  grande adianto.
A previsão é de 12h de pedalada, saindo as 4 da madruga por duas razões: evitar o sol forte, e chegar lá ainda com tempo para um banho de rio ou cachoeira.

Então, a lista de coisas necessárias:

BIKE E ACESSÓRIOS
– ferramentas, todas.
– espátulas e kit de remendo
– bomba
– câmaras reserva
– óculos
– firma pé
– alforjes e bolsa de guidão (inventei uma nova sensacional)
– luzes de sinalização e faixa refletora
– espelho (esse é novidade também)
– capacete

COMIDA
– água, muita água. (cada bike com 2 caramanholas no quadro, e mais uma garrafa na reserva possivelmente. no caminho tem onde enche-las)
– bomba calórica natureba (ainda vou na Casas Pedro comprar os ingredientes e fazer. a receita está aqui no blog!)
– pão, árabe. (não esfarela nem faz sujeira)
– frutas secas diversas
– sementes diversas (girassol, castanhas, amendoim, etc)
– maçã e cenoura (gostoso, não amassa, aguenta bem o tempo debaixo do sol)
– possivelmente algo açucarado pra dar um agrado

não vamos levar comida para refeição. lá teremos onde cozinhar, e nos viramos na mercearia local.

ROUPAS
– bermuda de ciclismo
– uma bermuda de ser humano normal.
– camisa dry fit
– camisa normal
– uma calça térmica para um possível frio (é tipo uma meia-calça, muito compacta e leve.)
– um casaco (no caso o abrigo corta-vento e chuva)
– 1 cueca extra
– 1 par de meia extra
– sunga

PRIMEIROS SOCORROS E HIGIENE
– esparadrapo
– gaze
– band aid
– soro fisiológico
– água oxigenada
– paracetamol
– dorflex (será?)
– filtro solar
– talco
– papel higienico
– sabonete (sabão de coco é até melhor!)
Acho que a lista completa é essa, mas sempre descobrimos que falta algo né. Essa será uma viagem bem curta e bem tranquila, se tudo der certo. O caminho já é conhecido, e estamos com tudo certo. (embora ainda me falte trocar um cabo de freio. hehehe)

Na semana que vem chegam notícias e fotos da pedalada!

beijos

Aventura Macanuda

Um breve relato da aventura de enfrentar o cruel trânsito carioca com bicicletas, para ver de perto o Liniers.

Nos últimos dias rolou no Rio o Comicon, um congresso de quadrinhos e artes gráficas, lá na Estação da Leopoldina, na Av. Francisco Bicalho.
Na sexta-feira o cartunista argentino Liniers esteve por lá para um debate e uma sessão de autógrafos. Então eu e Thais, fans do cara, resolvemos ir.
O debate seria às 20h, e no site estava divulgado que a distribuição de senhas aconteceria da seguinte maneira: metade no começo do dia (14h) e metade 2h antes do debate. A entrada no evento custava $ 10 (a meia!). Com medo de estar lotado, combinamos de chegar lá as 14h, pra pegar a senha, e depois eu iria pra aula e ela ficaria por lá provavelmente, e nos encontraríamos de novo depois.

Considerando alguns atrasos, nos encontramos na estação das barcas – ela vinha de Niterói – quase 14h, e lá começamos a pedalada juntos, em direção à Leopoldina. Eu conheço bem a região, já pedalei por lá algumas vezes, e sabia que ia ser o inferno. Ela não. Na dúvida sobre qual caminho pegar (porque nesse trecho todos são horríveis e hostis com as bicicletas), optei pelo seguinte: 1º de Março, Marechal Floriano, Pres. Vargas, Francisco Bicalho.
O começo foi razoavelmente tranquilo. Transito intenso na 1º de Março mas nada que os ciclistas daqui já não estejam acostumados. Marechal Floriano tinha o trânsito um pouco mais leve, mas o asfalto em compensação era lamentável. Assim chegamos na Central, e de lá a Mal. Floriano acaba e pegamos a Pres. Vargas, onde começa a desgraça.

A Av. Presidente Vargas é uma das maiores e mais movimentadas da cidade, com 2 pistas em cada sentido, cada uma com 3 faixas. As 3 faixas, entretanto, são bastante apertadas, e não comportam uma bicicleta pedalando pelos bordos. Pela margem esquerda, além de apertado, os carros passam em alta velocidade. Pela margem direita, temos um exército de ônibus se degladiando pelo espaço nos pontos, e nós, ciclistas, nos sentimos microscópicos.
Como a Thais está mais acostumada em pedalar pela direita, e os carros em alta velocidade da esquerda pareciam mais perigoso, fomos enfrentando os ônibus o quanto conseguimos. Há diversas paradas e MUITAS linahs nesse trecho da cidade, pois é caminho para vários lugares. Dessa forma, a batalha foi tensa. E o asfalto logicamente não nos favorecia.
Pouco depois da Univercidade (acho que é isso) desistimos do asfalto e fomos pra calçada, que dali em diante era bem pouco movimentada. Também não foi fácil pedalar, pois era muito quebrada e tinha vários degraus muito altos, de saídas de garagens.
Enfim conseguimos chegar ao final da Pres. Vargas, e depois da estação nova do metrô voltamos pra pista e seguimos até o começo da Francisco Bicalho, na altura da passarela.

Ali nos deparamos com um novo problema: estávamos diante de outra avenida de 4 pistas, cada uma com 3 faixas, extremamente movimentada, com carros em alta velocidade, e sem nenhum sinal de trânsito. A única forma de chegar do outro lado, na estação onde era o evento, seria pela passarela. O problema é que a passarela só tinha escadas. Não tinha rampa. É nessas horas a gente consegue se colocar na pele dos outros: se fôssemos cadeirantes, simplesmente não haveria como chegarmos do outro lado, a não ser que déssemos uma volta de uns 2 km indo até a rodoviária e atravessando a rua lá, o que não seria nada prático para um cadeirante.
Bicicletas erguidas, subimos e atravessamos a passarela (que a cada passo dado parecia que ia desabar).

Chegando no local do evento, novos problemas. O primeiro é que, logicamente, não havia um bicicletário. Afinal, quem em sã consciência iria pedalando para um lugar daqueles?! Rapidinho desenrolamos e prendemos as bikes numa grade no estacionamento de carros.
Segundo problema: burocracia pouca é bobagem. O evento custava $ 10 para entrar (porque pagamos meia), as senhas eram distribuidas somente la dentro, e o único jeito de pegarmos a senha no começo do dia era pagando o ingresso, e então esperando lá dentro até as 20h, quando seria o debate. Não havia a possibilidade de sair e retornar sem pagar outro ingresso. E lá dentro as opções para comer eram caras e escassas (no meu caso, não havia nada). Pegar informação com alguém era uma tarefa difícil, ninguém parecia estar trabalhando dentro do evento (apesar de usarem a camisa), e a resposta que tinhamos era sempre “pergunta pra alguém mais ali na frente”. No fim descobrimos que não havia nenhuma distribuição de senhas no começo do dia, e que só poderíamos pegar as senhas as 18h. Ou seja: correria toda a toa.

Então nos deparamos com um novo problema: voltar para perto da Central (eu ainda tinha planos de ir pra aula). O caminho pela via lá incluia passar por viadutos com carros em alta velocidade, então cruzamos de volta a passarela e seguimos pela calçada na contramão até a Pres. Vargas, onde cruzamos outra passarela (sem rampa tambem, mas tinha elevador pra cadeirantes), e de lá seguimos sem maiores problemas até o Campo de Santana. Pela hora, considerando que ainda íamos almoçar, desisti da aula.
Comemos yakisoba e ficamos sentados na praça do Campo de Santana um tempão, fazendo a digestão, debaixo da sombra de uma árvore (eu até tirei um cochilo) e rindo das cotias e gatos. Acho aquele lugar impressionante. No meio do inferno da Central, um lugar tão tranquilo, com sombra, bichos e sem (muito) barulho.

Lá pelas 17 e pouco decidimos levantar e partir para enfrentar o trânsito loco de volta pro Comicon. Dessa vez decidi tentar um novo caminho que evitasse termos que carregar as bikes pra atravessar a passarela. E um novo caminho é uma nova aventura: cruzar o túnel da Providência e seguirmos pela Gamboa até a Rodoviária, pegando a Francisco Bicalho no final.
Acho a experiência de passar pela Central nesses horários de pico, ainda mais de bicicleta, muito interessante. Me sinto naqueles vídeos de países asiáticos onde não há qualquer lei de trânsito. E é mais ou menos assim que funciona lá mesmo. Um formigueiro de pessoas, ônibus insanos, vans, cachorros cruzando a pista. E o túnel xexelento. Aah, o túnel xexelento! Fazia tempo que eu não passava de bicicleta naquele chão de pedra que te faz sentir uma britadeira humana. A Thais achou horrível passar por lá, mas eu confesso que estava com saudades.
A Av. Rodrigues Alves estava impraticável (alguma hora ela não é?!), e seguimos pela calçada até uma transversal que nos levou a uma ruasinha menor da região, que desemboca já na rodoviária. De lá até que foi fácil. Cruzamos por baixo do viaduto, e pegamos a Francisco Bicalho até a estação.

O Comicon estava muito bacana, e foi LINDO conhecer o Liniers. O cara é uma tirinha dele mesmo encarnada num ser humano. Ele falando e rindo o tempo inteiro e fazendo piadas sem parar, era um cartum em pessoa. Rolou uma sessão não apenas de autógrafos, mas de desenhos! Ele tava desenhando pra todo mundo! E super gentil e solícito. O cara é um fofo. Ficamos mais fãns do que já éramos. (Thaís tava até nervosa de falar com o cara! hehehe)

No fim, na volta pra casa, tivemos que erguer a bike mais duas vezes pelas passarelas do caminho (totalizando 5 sobe e desce com a bike no ombro), mas o transito já estava mais ameno e foi tudo mais tranquilo.

Pedalar no Rio de Janeiro, em especial no centro, numa sexta-feira a tarde, parece realmente coisa de maluco. Mas na verdade é coisa de apaixonado. Maluquice é ficar preso no engarrafamento. A cada perrengue desses que passo, eu gosto mais e mais de pedalar pela cidade, conhecer lugares pelos quais de outra forma eu nunca passaria, pela possibilidade de simplesmente decidir “ah, hoje vou pegar essa rua aqui que faz um caminho diferente”.

“As ruas desvendam novos segredos. Mas é tudo o mesmo se o olhar é sempre o mesmo.”

bycicle illusion

Bycicle Illusion I

Hollywood está propagandeando o lançamento de seu novo filme: Premium Rush.

Se trata de um filme de ação que tem como cenário o trânsito de Nova York, e como protagonistas e heróis os bike messengers e suas fixas. Pelo que entendi da trama não muito original, o rapaz (interpretado por um cara que está em A Origem) tem que levar uma encomenda em x minutos para o ponto tal. Ele não sabe o que está no envelope. Acontece que é algo muito valioso e vários mafiosos motorizados e a polícia agora estão atrás dele para pegar o envelope.
Os bike messengers fixeiros do filme são o estereótipo quase completo. Bolsa de bike messenger, usando a corrente como cinto, calça justa, etc. Pro protagonista só faltou o bigode, mas acho que não ia pegar bem pra um galã de hollywood (com excessão do Johnny Depp)

A estréia do filme está prevista para março do ano que vem, mas parte da comunidade ciclística e fixeira (que muitas vezes parecem coisas diferentes) está já em alvoroço, aguardando ansiosamente a estreia do candidato a blockbuster hollywoodiano.

E aí, depois do sucesso total, por alguns meses as ruas serão invadidas por ciclistas de fixas com guidão bullhorn sem freio – como o protagonista deixa claro, empresas de bike courriers, algumas imprudências e excessos de velocidade – da parte dos ciclistas, atropelamentos (no trailer do filme rolam uns 4).

Aí passados outros meses, a moda passa, lançam um filme de ação sobre jogadores de xadrez, todo mundo guarda a bicicleta no armário e desenterra aquele tabuleiro que ganhou do avô no natal de 8 anos atrás.

A vida imita a arte. e Hollywood não perdoa.

O trailer pode ser visto aqui: http://www.youtube.com/watch?v=Pn6ie1zCkZU

Bycicle Illusion II

texto enviado pelo Cristiano Requião à lista da Bicicletada do Rio sobre as agora muito famosas bicicletas elétricas. sobre como seu fator “não-poluente” é uma grande farsa pra gringo ver e classe média preguiçosa de pedalar comprar e achar que está salvando o meio ambiente.

Fonte: http://www.globalgarbage.org/blog/

Muita gente acredita que o uso da eletricidade para o transporte urbano seria a solução contra a poluição. Ledo engano. É uma ótima alternativa quando se trata de transporte de massa, como metrô. Neste caso, a energia utilizada vem pela rede e não depende de acumuladores ou baterias. 

Sempre soube e nunca discordei que automóveis elétricos – e agora bicicletas, triciclos etc., são muito mais poluentes do que os equipados com motores à explosão. A primeira forma de poluição que vem à cabeça quando pensamos em veículos urbanos é a do ar. Com toda razão, é absurda. Poucos se dão conta, no entanto, que a poluição automotiva começa na fabricação, passa pela sua utilização (combustível/energia) e continua até o descarte.

Com os veículos elétricos a poluição não é aparente. Não são gases que eles emitem. Neste caso ela está embutida principalmente nos processos de fabricação e descarte, mais notadamente de suas baterias. Os acumuladores são basicamente de dois tipos: metal-hidreto e chumbo ácido, ambos com metais extremamente agressivos ao meio ambiente. Existem ainda os de lítio – com uma capacidade de carga e durabilidade maiores, mas extremamente tóxicos. E não existe “reciclagem” de pilhas e baterias. O percentual de reutilização destes materiais é insignificante, porque a energia elétrica provoca transformações químicas que os reduzem. E emitem gases e vapores tóxicos durante a fabricação e descarte. E estes resíduos acabam inexoravelmente nos lixões comprometendo os lençóis freáticos. 

Como o assunto é bicicleta, mandei uma mensagem a um fabricante perguntando qual o tempo médio de vida útil das baterias e a resposta foi um ano. Isso quer dizer que, a cada ano, uma bicicleta elétrica descarta uma ou mais baterias que são compostas (neste caso) de plástico e metais tóxicos como chumbo e zinco além de ácido sulfúrico.

Estes componentes perfazem 4Kg a 6Kg por bateria. Se multiplicássemos isso pelo número de bicicletas elétricas teríamos o volume de baterias descartadas a cada ano. Isto sem considerarmos que a energia consumida sairia das tomadas, sobrecarregando ainda mais o sistema elétrico de distribuição. A principal argumentação dos fabricantes e usuários é que não poluem o ar e o custo por quilômetro é baixo. O que eles não consideram é o custo ambiental, que é altíssimo.

E justamente a bicicleta, que é o veículo de maior rendimento – quando pedalado… E pedalar uma bicicleta não significa somente poupar energia. É um hábito saudável, preocupação nem sempre presente na cabeça daqueles que pensam primeiro na “lei do menor esforço”. Isto é, todas as vantagens que ela proporciona como veículo leve, de tração humana (não poluente), que independe de qualquer fonte de energia artificial, passa a ser um simulacro daquilo que ela se contrapõe.


A “máquina” de sorvete caseira.

Fiz mó propaganda, agora todxs estão achando que construí um mega dispositivo. Mas a parada é muito mais simples do que parece.

Uma máquina de fazer sorvete se constitui de um recipiente onde a massa do sorvete fica dentro, sendo mexida em baixa velocidade, ao mesmo tempo em que congela. É isso que garante a cremosidade do sorvete. Ele não empedra como gelo porque é areado enquanto gela.
As máquinas profissionais são auto-congelantes. Elas fazem a função de refrigeração.
Algumas caseiras mais caras são assim. Outras, mais simples, tem um pote que você leva vazio ao congelador. Ele tem na sua parede externa uma camada de líquido congelante. Aí você coloca no freezer ou congelador até ficar congelado, tira, joga a massa de sorvete no meio, e coloca na máquina, que bate lentamente, e o sorvete adquire consistencia a partir do “tambor” congelado.

Então, como fazer isso em casa, sem ter que comprar uma máquina cara? Muito mais simples do que parece.

Pegue um pode grande, coloque dentro dele um menor, e jogue água com sal (fica tipo um banho maria), até cobrir toda a parede lateral do pote de dentro. Leva ao congelador (é conveniente colocar um peso dentro do pote central pra ele não boiar).
Quanto mais grosso for o pote externo, melhor. Quanto mais fino for o pote interno, melhor. E de materiais que transfiram bastante temperatura. Alumínio é ótimo!
Outro jeito é colocar um pote dentro do outro e preencher o espaço com gelo moído.

Aí você coloca no pote do meio a massa de sorvete, e bata com uma batedeira na velocidade mais lenta que tiver, até adquirir a consistencia de um milk shake. Coloca pra congelar um tempo. Se estiver congelando cremoso, no ponto, ótimo. Se não, tire antes de congelar por completo e bata mais.

O ideal seria usar algum motor bem mais lento que uma batedeira (acabo de receber de um amigo a sugestão de usar um motor de espremedor de frutas).

É só isso. A “máquina” de sorvete caseira nada mais é que uma adaptação de uns potes e uma batedeira que funcionam como uma máquina de sorvete caríssima da Kitchen Aid.

A massa que fiz pra testar esse mecanismo foi feita assim:
– 2 caixas de creme de soja
– 250 ml de leite de soja
– meia barra de chocolate meio amargo derretido
– açúcar a gosto
– uma pitada de emulsificante, que eu tinha aqui. mas acho que não faz falta nenhuma fazer sem.

Convém colocar pedacinhos de chocolate picado no final do processo, quando terminar de bater.

Lembre-se que outro fator que influencia na consistencia do sorvete é a gordura. Quanto mais gorduroso, mais cremoso. Por isso os industriais levam gordura hidrogenada. Se for muito aquoso, vai ficar tipo “gelinho”.

Simples assim. Aproveite.

duas leituras obrigatórias

Ontem, por azar, dois professores faltaram, então saí super cedo da minha aula, que normalmente terminaria as 19h.

Então lembrei que às 17h ia rolar um bate-papo sobre uma experiência de uma cicloviagem solitária de mais de um mês de uma menina, além da apresentação do grupo das Ciclobailarinas, isso tudo do outro lado da rua, na Faculdade de Dança Angel Vianna.
Cheguei lá e a cicloturista era a Ana Luísa, que eu tinha conhecido 3 dias antes na Bicicletada.

Quantas coincidencias.

A Ana fez um lindo relato da viagem que fez de Belo Horizonte até Brasília, ao longo de 1 mês e 20 dias, sozinha, em estradas de terra, ermas, inspirada pelo livro Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa.
Apaixonada pelo livro, ela decidiu cruzar de bicicleta as rotas e cenários reais presentes no livro, narrados pelo personagem Riobaldo.
E além disso, nas palavras dela, embarcar num universo ficcional porém real que é uma viagem dessa.

Não quero falar muito mais. Então segue o blog dela, onde ela está construindo um relato escrito e fotográfico dessa viagem inspiradora.

http://viagemgrandesertao.blogspot.com/

Além disso, acabei de receber pela lista da Bicicletada do Rio um breve e emocionante relato de um encontro casual entre dois ciclistas, numa estrada, que confesso ter me arrancado umas lágrimas tímidas aqui.

http://pedalativo.blogspot.com/2011/08/uma-bicicleta-uma-meta-e-muita.html

 

No mais, amanhã, quarta-feira, dia 31, teremos o 1º round de uma batalha importante: BICICLETADA VS Barcas SA
Vai ser uma bicicletada excepcional, em que iremos até o terminal da Barcas para exigir o fim da cobrança abusiva de R$ 4,70 pelo transporte das magrelas.

Concentração às 20h na Cinelândia, em frente ao Odeon. De lá seguimos até o terminal na Praça XV.

beijos!

 

 

Ordem dos Músicos do Brasil censura músicos

Hoje foi uma sexta-feira deliciosa. Acordei quase uma da tarde, comi yakisoba podreira com a Duda, tiramos uma sonequinha logo depois (é, a gente dorme muito), depois fui pra Bicicletada, que foi ótima, debaixo de uma chuva rala bem agradável!

Mas não é sobre a Bicicletada que vou falar nesse post.

Passei em casa depois da pedalada, comi algo, e fui encontrar um amigão num bar aqui perto. Não o via já fazia um tempão. Fui lá pra trocarmos uma idéia, e ele estava com mais dois amigos.

Eu tinha ficado sabendo que no mês de julho eles participaram do circuito do Festival de Inverno do SESC (ou qualquer coisa assim), fazendo parte de uma performance. A idéia do trabalho era a realização de pinturas e músicas ao vivo acompanhando poesias que eram recitadas, e junto alguns vídeos eram projetados. Não sei maiores detalhes, mas era algo por aí.

Eles enviaram para a organização do SESC um rider de equipamentos que seriam necessários, principalmente por causa da parte musical. Bateria, amplificadores, microfones, mixer. O básico.
Entretanto, receberam como resposta do SESC a seguinte exigência: apresentar documento que comprovasse que os 3 músicos participantes tinham a anuidade da Ordem dos Músicos do Brasil – OMB – paga em dia. A resposta do grupo foi: a gente não tem isso, nunca pagou, e não vai pagar agora só pra isso.
Acontece que a regulamentação da profissão “Músico” feita pela OMB dá à Ordem o direito jurídico de impedir que eles façam apresentações musicais se não tiverem pago o valor da associação. Não apenas isso! A performance não poderia ter qualquer referência a nenhuma música ou mesmo qualquer elemento musica. Estavam vetados: ritmo, melodia, harmonia, instrumentos musicais e samples de música, sob o risco de serem eles e o SESC processados caso desobedecessem as normas da OMB.

Com muita criatividade, eles contornaram a situação criando uma paisagem sonora com ruídos sampleados, inspirados nas poesias que seriam recitadas. Nada que se referisse a harmonia, melodia, sem instrumentos musicais.

Processos históricos levaram à necessidade da criação de sindicatos e das “Ordens” de certas profissões. Não faço idéia de qual foi o processo que levou à criação da Ordem dos Músicos do Brasil, mas consigo imaginar alguns muito legítimos: regulamentação dos salários, horários de trabalho, proteger os músicos dos abusos de produtores e organizadores e eventos, garantir certos direitos trabalhistas básicos para uma classe profissional que, na maioria dos casos, trabalha como freelance. Enfim, sei lá como ou quando a OMB especificamente foi criada, nem mesmo porque, mas imagino algo parecido com isso.

Mas o processo que leva a absurdos como esse que meus amigos sofreram é na maioria das vezes o mesmo em diversas entidades representativas de uma classe: a burocratização, dos sindicatos pelegos que movimentam altas cifras mas pouco fazem pela sua classe (sei de um sindicato que se recusa a pagar aposentadoria à minha avó) a uma Ordem dos Músicos que nada mais faz além de censurar a existencia da música.
Se o sindicato é, em teoria, uma via de luta por direitos trabalhistas, acaba muitas vezes se tornando uma forma do indivíduo que exerce uma profissão delegar do seu poder de decisão sobre sua própria atividade. As entidades ficam nas mãos de uns poucos indivíduos que, afastados da realidade e das condições do que seria sua própria profissão, usam da instituição e sua estrutura representativa para criar uma máquina burocrática geradora de dinheiro, e que na prática só atrapalha as reivindicações e lutas da classe.

Toda estrutura institucionalizada, organizada de maneira vertical e representativa, leva a abusos, corrupções e burocracias extremas, sejam sindicatos, sejam governos.
Por outro lado, formas de organização horizontais, autonomas e autogestionárias dão aos indivíduos a possibilidade de construir organicamente as diversas esferas de sua vida,  e gerar lutas reais por reivindicações reais.

Já imaginou se no mesmo evento uma Ordem dos Poetas do Brasil impedisse o recital de poesias, e a Ordem dos Pintores do Brasil censurasse a pintura ao vivo na performance? E se a Ordem dos Produtores Culturais do Brasil começasse a embargar eventos porque seus organizadores não estão com suas mensalidades em dia e carteirinhas devidamente atualizadas?

No mais, procurei a legislação referente às atribuições dadas à OMB, e descobri que a lei que dá esse aparato de censura à Ordem data de 1960! É uma lei aterior inclusive aos aparatos de censura da ditadura militar, e que durante esse período deve ter sido muito útil para embargar eventos culturais, artísticos e políticos, sob o pretexto de estarem em desacordo com a ordem (como se na ditadura eles precisassem disso…)

Lei nº 3.857 de 1960

Art. 16 – Os músicos só poderão exercer a profissão depois de regularmente registrados no órgão competente do Ministério da Educação e Cultura e no Conselho Regional dos Músicos sob cuja jurisdição estiver compreendido o local de sua atividade.

Art. 18 – Todo aquele que, mediante anúncios, cartazes, placas, cartões comerciais ou quaisquer outros meios de propaganda se propuser ao exercício da profissão de músico, em qualquer de seus gêneros e especialidades, fica sujeito às penalidades aplicáveis ao exercício ilegal da profissão, se não estiver devidamente registrado.

Art. 19 – As penas disciplinares aplicáveis são as seguintes:

a) advertência;
b) censura;
c) multa:

Retirado do site da própria OMB – Lei 3857 de 1960 (site da OMB)

Aproveito essa reflexão nesse dia de Bicicletada para divulgar um texto que acabei de ler, sobre a Massa Crítica de Berkeley (USA) e sua forma de organização, em oposição à Bike Party da mesma cidade. Em inglês!

Critical Mass vs. Bike Party